Mapa da históriaVeja de onde este capítulo veio e quais caminhos a narrativa já abriu.1 de 2 lidos
O sal na pele
Carlos nunca acreditou em romances passageiros, mas bastou um olhar no quiosque da praia para perceber que algumas histórias nascem condenadas às marés. Ela se chamava Lia, e seu sorriso parecia brincar com o sol, como se soubesse o segredo de prender a atenção de um homem que não se deixava prender.
Nos dias seguintes, encontraram-se sem combinar: no calçadão, no sorveteiro, no mesmo trecho de areia. Ele dizia ser coincidência, ela ria e dizia que o destino era folgado demais para deixar tudo por conta do acaso. Carlos, engenheiro metódico, começou a sentir o tempo perder a forma; entre mergulhos e conversas sobre nada, os ponteiros viraram ondas.
O último dia chegou com cheiro de despedida. O vento do fim de tarde trazia aquela melancolia que só o verão sabe soprar. Lia segurou sua mão e, sem pedir promessa, pediu memória. “Deixa que a vida decida se a gente se encontra de novo”, disse ela, com a serenidade de quem entende que nem todo amor precisa durar para ser verdadeiro.
Carlos voltou à serra com a areia ainda nos sapatos. Nos meses que seguiram, cada chuva o fazia lembrar o som do mar, e cada perfume doce na rua trazia um lampejo do sorriso dela. Nunca mais se viram, mas em algum canto de si ele sabia: certos amores não acabam, apenas mudam de estado. Evaporam, como o sal na pele, e ficam suspensos no ar — invisíveis, mas eternos.